Dorme numa cama que pareçe o universo em chamas. Os lençóis têm seu cheiro e minha boca tem nosso gosto. Não acordo, nem durmo por completo, ainda estarei nesse limbo de espaço por algumas horas. A pele está ótima, assim como os pensamentos.O tempo que já não cala, vive conturbado pelos barulhos urbanos e duros do cruzamento das avenidas que cercam meu edifício. As buzinas e ambulâncias ou mesmo as pneus e escapamentos desregulados dos carros, deixam minhas neuras à flor da pele. E esta, que é o maior órgão do corpo humado, quer alcançar outros corpos nessas noites sujas do fim-de-semana.
Uma última buzina, já às 04h00 chama: bip bip. Será que é para mim? - penso eu. Tolos desejos de quem quer apenas um motivo para levantar o busto desnudo, vesti-lo cetim e conferir o dinheiro na carteira, para então bater a porta (porque essa hora, tudo que se fecha faz barulho). Os toques dos saltos nos tacos pelo corredor são faíscas para tudo o que sinto. "Como eu gostaria que alguém me visse agora." E quase bato na porta da vizinha cafetina: ela adoraria!
Rua, calçada, aceno, alguns passos até o táxi, "Pra onde? Savassi". Olhares, entrada, porteiro,"Nome? Ana" (melhor não falar demais nessas horas). Escada, porta, fumaças, olhar fatal, cumprimentos frios, meu cumprimento de cabeça ao bartender. Bar, "À essa hora? Sim. O que bebe? Dupla Vodca (penso eu: O que mais beberia 'à essa hora?')". Escada estreita, mãos, 3 beijos em desconhecidos, "Oi" ao DJ (droga! Ele não nota.). Pista, mãos, passos, mãos, passos, mãos, "Gostosa!", banheiro. Maquiagem borrada, 2 espelhos, 1 escrito em batom vermelho: "Malu, te amo. Ass.: Flávia", beijos triplos, 3 sexos. Sem papel, calçinha molhada. Porta entraberta agora fechada, giro, água do bar. "Vou embora" - digo.
Já do lado de fora, o táxi vem até mim sem aceno, entro,"Pra onde? Casa. Minha casa". Impressionante, mas ele chega até meu prédio: talvez fosse o mesmo motorista. Dá vontade de comprar pão, mas minhas retinas se queimariam se eu insistisse em ficar mais algum tempo naquele sol matutino. Portaria, 'Bom dia' ao porteiro, elevador chega ao térreo com gente, 13º corredor, já não importa o barulho dos saltos, chaves. Mas cadê as chaves?
Sento-me recostada na porta. Minha cabeça me diz que talvez eu não tenha saído com as chaves. Nem mesmo trancado nada. Ajeito o celular e ligo: "Amor, você está com minhas chaves?". Ainda com voz de trovão ele responde: "Sim. Já chego aí.". Pisco e durmo nesse meio-tempo. Ele chega, me toma nos braços, termina de abrir a porta e me põe na cama. Porta fechada.
Ao acordar, percebo que há um amor em meus lençóis, que me teve nos braços e ainda sabe usar todas as minhas chaves. Sendo assim ou assado, somos agora, eu e ele, no universo.
Influências:
"Canalha!" - Fabrício Carpinejar
"As Fêmeas" - Marcelo Rubens Paiva


3 comentários:
Ana, minha priminha querida! Adorei seu texto. Nossa, varios elementos maravilhosos da literatura, estilo cronica mesmo. Vc tem um estilo pessoal genial.
Bjs
Coisa mais linda, amiga.
Bate lá no fundo e fica. Aquece o coração.
Amo vc!
E to com mtas saudades!
Bjs meus!
Sensacional seu texto: limpo, direto, honesto. Texto maduro, estonteante, fluente. Gosto do seu texto, meio Luiz Vilela com trejeitos beatnik. Parece que somos ambos banhados por uma luz parecida, mas cada um filtra do jeito que pode. Ou que quer. Seu texto me emociona, Aninha. E faz meu coração bater forte de orgulho!
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